
Moda e o sagrado
- Solange Mezabarba

- 13 de out. de 2022
- 4 min de leitura
Por Maria Carolina Ernesto e Marcela de Jesus
Encarando as reflexões que trouxemos para essa semana no nosso instagram (podem ir lá seguir que a gente agradece rs), vimos que a moda e a religião conversam entre si em muitos âmbitos e de diferentes formas, mas ainda assim, há muito o que se falar sobre o assunto! Primeiro, o que pode ser definido como religião?
Bom, de acordo com a Oxford Languages, uma breve definição é “crença na existência de um poder ou princípio superior, sobrenatural, do qual depende o destino do ser humano e ao qual se deve respeito e obediência” ou “postura intelectual e moral que resulta dessa crença.” Claro que a vivência dos fiéis de cada religião existente, é bem mais profunda do que uma ou duas linhas de palavras em um dicionário, já que a fé proporcionada por elas, assim como seus códigos e crenças, muitas vezes são uma parte importante do que traz sentido pra vida dessas pessoas e o que movem uma comunidade em prol de diferentes propósitos.
Como sabemos, muitas religiões possuem seu próprio código de vestimenta, algumas com regras mais rígidas que outras. Essas peças podem ir desde acessórios até trajes completos como no caso, por exemplo, de religiões de matriz africana. É o caso do Candomblé, que atribui grande peso simbólico à sua indumentária, desde a do cotidiano do terreiro, até aquelas usadas em rituais sagrados. No dia a dia dessa religião, seus fiéis utilizam roupas em sua maioria brancas e leves, para fácil realização das tarefas do terreiro, homens de calçolão, bata e ojá (uma pano para cabeça onde foi depositado o axé do orixá), enquanto as mulheres usam saias rodadas sem anáguas, camisu, o ojá e o zinguê(suporte de proteção feito em tecido branco, para proteger os seios, no caso dos homens, o tórax). A cor branca é muito simbólica, pois representa a unidade do grupo, assim como a identidade, fazendo com quereconheçam um ao outro. E assim como no Candomblé, muitas outras religiões possuem peças de vestuário sagradas, que servem para expressar suas crenças e fé, como o hijab, no Islã, o rakusu para os praticantes do Zen-Budismo, etc. Vale lembrar, inclusive, que para algumas religiões, pode haver uma hierarquia, no uso de certos tipos de trajes.
Agora, como isso se relaciona com a moda? Uma definição para moda é "conjunto de opiniões, gostos, assim como modos de agir, viver e sentir coletivos” (definição de quem?) Essa definição evidencia pontos em comum com a representação da indumentária sagrada, a partir do momento em que são utilizadas de forma a criar um coletivo regido por códigos religiosos. Dito isso, cada vez mais, as pessoas estão trazendo os significados sagrados de suas religiões para seus trajes diários, expressando sua fé de diferentes formas em seu cotidiano.
De acordo com a autora do artigo “Moda religiosa ganha espaço no mercado fashion”, Meghna Sarkar, para Forbes em 2019, um fator agregador para essa tendência de uma moda religiosa foi um grupo de mulheres diversificadas que adotaram identidades únicas nas redes sociais e estão ganhando força. Uma pesquisa realizada no instagram(quando?), mostrou que existem 1,3 milhões (4,7 milhões agora) de postagens com a hashtag #modestfashion e 22,3 milhões de menções com a hashtag #hijaber. Ao que parece, a falta de um conteúdo produzido para mulheres de culturas minoritárias ao redor do mundo, fez com que blogs direcionados para esse público começassem a aparecer. Meghna Sarkar, em seu artigo já mencionado aqui, cita Jeniffer Loch, fundadora da Jen Magazine. Loch recorda que “Quando comecei, em 2004, não havia blogs, nem bloggers, nem blogueiros de moda que vendiam roupas específicas para esses grupos de mulheres. Três anos depois, o blog de moda se tornou algo grandioso”. A influencer se identifica como mórmon, pertencendo à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (SUD). Essa mulher e mais muitas outras vêm se tornando potências nas mídias sociais, mostrando que há como inserir suas crenças e fé de forma estilosa e respeitosa em suas vestes diárias, influenciando pessoas e o mercado.
Esses casos citados acima, relacionados a vestimentas religiosas do Candomblé, das mulheres muçulmanas e do mercado de moda movimentado pelas influencers, como a Jennifer, que é mórmon, são apenas exemplos dentre uma grande gama de outras representações de como a indumentária religiosa muda segundo suas crenças. A forma como as mulheres assembleianas se vestem, por exemplo, com saias mais longas é outro exemplo desses casos, bem como as vestes religiosas de sacerdotes no Catolicismo. A relação da moda, das roupas e da forma como religiões se expressam através delas, é algo intrínseco a nossa movimentação como sociedade e influencia inclusive como o indivíduo que professa aquela fé vai pensar, reproduzir ou consumir moda em sua comunidade. É como dizem, a fé move montanhas, e também o mercado de moda ;-) Agora, dá uma passadinha lá no perfil #nosnatrama no seu instagram e curte as publicações sobre o tema que estão na semana de 03 a 07 de outubro!!!!
Fontes:
SANTOS, José Roberto Lima. O GUARDA-ROUPAS DE CANDOMBLÉ ANCESTRALIDADE, DEVOÇÃO E TRADIÇÃO AFRO-BRASILEIRA. p. 4-5. Disponível em: <https://www.publionline.iar.unicamp.br/index.php/abrace/article/viewFile/4988/4997>. Acesso em: 3 de outubro de 2022.
SARKAR, Meghna. Moda religiosa ganha espaço no mercado fashion. Forbes, 2019. Disponível em: <https://forbes.com.br/negocios/2019/04/moda-religiosa-ganha-espaco-no-mercado-fashion/#foto4>. Acesso em: 3 de outubro de 2022.



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